O que é
O Book de Ofertas (também chamado de Livro de Ofertas ou DOM — Depth of Market) é a janela que mostra, em tempo real, todas as ordens limitadas de compra e de venda que estão registradas na bolsa e ainda não foram executadas. É a "fila" do mercado: de um lado os compradores esperando pagar até determinado preço (bid), do outro os vendedores esperando receber a partir de determinado preço (ask), cada nível com sua quantidade ofertada.
O book é a fotografia da liquidez passiva do mercado. Ele não mostra negócios fechados (isso é papel do Times & Trades) — mostra intenção declarada. Por isso é a ferramenta mais básica e mais importante do tape reading: toda leitura de fluxo começa entendendo o que está pendurado no book.
Como funciona
Na prática, o book é uma tabela de dois lados ordenada por preço:
- Lado da compra (bid): melhores preços de compra em ordem decrescente. A primeira linha é o "topo do book" — o maior preço que alguém aceita pagar agora.
- Lado da venda (ask): melhores preços de venda em ordem crescente. A primeira linha é o menor preço que alguém aceita vender agora.
- Spread: a diferença entre o melhor bid e o melhor ask. No WIN e no WDO, em condições normais, o spread fica em 1 tick (5 pontos no WIN, 0,5 ponto no WDO).
- Cada linha traz normalmente quantidade total (contratos) e quantidade de ofertas (quantos participantes compõem aquele nível).
Nas plataformas brasileiras:
- Profit (Nelogica): janela "Livro de Ofertas", com abas de Preços (agrupado por nível), Ofertas (ordem a ordem), Profundidade e SuperDOM (book acoplado ao gráfico para operar com clique). Tem filtro de ofertas para esconder lotes pequenos/algoritmos.
- Tryd: "Book de Ofertas" e o Super DOM com colunas configuráveis.
- FlowChart / ATG / Bookmap: transformam o histórico do book em mapa de calor (heatmap), mostrando onde a liquidez esteve ao longo do tempo — útil para ver ordens que somem e reaparecem.
O preço só se move quando ordens a mercado (agressões) consomem toda a quantidade de um nível do book. Ou seja: book é o "estoque", agressão é o "consumo".
O que indica
- Onde está a liquidez: níveis com muito lote funcionam como ímãs e barreiras — o preço tende a acelerar em regiões vazias do book e frear em regiões pesadas.
- Intenção dos participantes: players institucionais precisam de liquidez para montar posição; a forma como posicionam (e cancelam) ordens no book revela parte da estratégia.
- Suportes e resistências "de fluxo": uma defesa recorrente num preço (lote grande que segura repetidas agressões) indica nível defendido — mais confiável quando confirmado pelo T&T.
- Fragilidade de movimento: rompimento que entra numa região de book vazio anda rápido; rompimento contra book pesado sem agressão consistente tende a falhar.
Importante: o book mostra intenção, não compromisso. Ordem limitada pode ser cancelada a qualquer momento. Por isso a leitura séria sempre cruza book (intenção) com Times & Trades (execução).
Como identificar
O que observar na prática:
- Desequilíbrio de quantidades: um lado consistentemente mais pesado que o outro. Ex.: 1.200 contratos somados nos 5 primeiros níveis de compra contra 400 na venda sugere colchão comprador.
- Lotes grandes em nível específico: uma ordem de 300–500 contratos parada num preço no WIN chama atenção — pode ser defesa de nível de um player grande (ou blefe).
- Ordens que somem quando o preço aproxima: lote grande que é cancelado quando o mercado chega perto é típico de spoofing/blefe — a intenção nunca foi ser executado.
- Reposição de liquidez: nível que é consumido e imediatamente "reabastecido" com novas ofertas indica interesse real (possível iceberg).
- Velocidade de atualização: book piscando rápido, com muitas alterações por segundo, indica presença de algoritmos e momento de mais atividade.
Exemplo de leitura: WIN negociando a 128.500. No book, a venda em 128.550 mostra 450 contratos e os níveis acima são magros; a compra tem lotes pequenos e espalhados. Leitura: existe um "teto" visível em 128.550 — para o preço subir, alguém precisa agredir e consumir esses 450 contratos. Se as agressões de compra chegarem e o lote não recuar, e o T&T confirmar execução, o rompimento ganha credibilidade; se o lote sumir sem ser executado, era blefe.
Na prática
No WIN/WDO:
- Timing de entrada: use o book para escolher o tick de entrada depois que a decisão veio do contexto (price action + região). Ex.: comprar no suporte quando aparece defesa compradora no book + absorção das vendas no T&T.
- Confirmação de rompimento: antes de comprar rompimento, veja se a liquidez vendida no nível está sendo de fato consumida (T&T) e se acima há book "limpo" para o preço andar.
- Stop e alvo informados por liquidez: evite deixar stop exatamente atrás de nível óbvio e magro; considere alvos antes de paredões de liquidez.
- Filtro de ofertas: no Profit, filtre lotes pequenos para enxergar só o que importa (ex.: acima de 50–100 contratos no WIN).
- Combinação clássica: região de price action (suporte/resistência, VWAP, aglomeração) + comportamento do book na região + confirmação de agressão = trade com tese completa.
Quando falha
Fortes
- Informação em tempo real da liquidez passiva — nenhum indicador derivado de preço entrega isso.
- Excelente para timing fino de entrada e saída (escalar ticks no WIN/WDO).
- Base para detectar blefes, defesas, icebergs e spoofing.
Limitações
- Ordens limitadas podem ser canceladas: o book é manipulável e blefes são rotina.
- Não mostra ordens ocultas (icebergs mostram só a ponta) nem ordens a mercado que ainda não chegaram.
- Em ativos de baixa liquidez a leitura fica pobre e errática; funciona melhor em WIN/WDO e ações muito líquidas.
- Excesso de ruído: algoritmos inserem/cancelam milhares de ordens; sem filtro, o book "pisca" demais.
- Confiar em lote grande como se fosse execução garantida: lote no book não é negócio fechado; sem confirmação do T&T, pode ser blefe.
- Ler o book isolado do contexto: book sem gráfico vira cassino de ticks. A região importa mais que a fila.
- Achar que book pesado de um lado = preço vai pro outro lado sempre: às vezes o lote pesado é justamente o alvo dos agressores (e é consumido).
- Operar profundidade total em vez dos primeiros níveis: no intraday do WIN, os 5–10 primeiros níveis concentram quase toda a informação útil.
- Ignorar o spread em momentos de stress: em notícia/abertura o spread abre e a execução a mercado sai muito pior que o esperado.
Exemplo
Cenário no WIN, meio de manhã: preço lateralizado entre 128.400 e 128.600. O trader observa que toda vez que o WIN testa 128.400, aparece no book um lote de ~400 contratos na compra em 128.395/128.400. Três testes seguidos: as agressões de venda batem nesse nível, o T&T mostra prints vermelhos grandes sendo executados, mas o preço não perde os 128.400 — e o lote comprador é reposto a cada consumo (comportamento de iceberg/defesa).
No quarto teste, as vendas agressoras diminuem de tamanho (exaustão do vendedor) e o book acima de 128.400 começa a "esvaziar" na venda. Leitura completa: defesa compradora real + vendedor cansando + caminho livre para cima. O trader compra em 128.410 com stop abaixo da defesa (ex.: 128.340, atrás do nível defendido) e alvo na liquidez seguinte em 128.600. O gatilho não foi o book sozinho — foi book + T&T + região de suporte do price action.
